Herança

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Recentemente meu avô foi surpreendido com uma nova batalha para sua coleção, UM CÂNCER.

Passados os primeiros devaneios desesperados, que acredito serem naturais a qualquer pessoa que ame demais seu avô, comecei a pensar sobre uma palavra: HERANÇA. Engraçado como alguns nós emocionais só são possíveis de atar quando você se torna Pai, não pelo motivo obvio de “estar mais maduro”, que nem sempre é uma verdade, mas sim por que essa inquietação começa a fazer parte da sua vida diariamente. O que estou deixando de HERANÇA?

Depois dos primeiros dias, comecei a pensar no meu avô todos os dias de manhã, durante meu trajeto para o trabalho. Achei maravilhosamente absurda a disparidade entre seus bens materiais e seu legado espiritual. Espiritual não no sentido religioso ou místico da palavra, mas no sentido de desconexão total com o material. Sim, meu avô construiu muito coisa com seu trabalho, sua dedicação, sua paixão por criar, consertar, mas comecei a pensar na grandeza do que ele construiu como um grande “gestor da família”.

E mais uma vez me deu um dos maiores exemplos que um homem poderia ter. EU QUERO CONSTRUIR ISSO, EU QUERO DEIXAR ESSA HERANÇA!

Diariamente tenho revivido inúmeros momentos que vivenciei com ele. Mas, diferentemente das outras vezes, consigo entender a importância da HERANÇA, a importância de cada palavra, ou silêncio. Lembro-me de tantas coisas que seria impossível escrevê-las, mas resolvi compartilhar algumas, para que eu nunca me esqueça delas.

Lembro das incansáveis horas no “quartinho dos fundos” martelando, furando, lixando, pintando, refazendo. E eu, como se fosse um chaveiro, grudado ao seu lado tentando aprender tudo que eu podia de como ele fazia aquelas coisas fantásticas. Mas eu não sabia o que realmente eu estava aprendendo. Ele estava me ensinando que na vida quando algo se quebra, você concerta. Ele me ensinou que a verdeira felicidade não é “poder comprar outra”, ou substituir, mas em ser produtivo, ser criativo, e no fim, se orgulhar do que fez.

Lembro de todas as cirurgias que minha avó precisou fazer. Achava curioso como ele fazia tanta questão de ficar com ela todos os momentos, sem exceção, dias e noites. Na época eu não entendia, acho que nem conseguiria. Mas sim, ele estava ensinando a todos os seus discípulos o que significa CUMPLICIDADE!

Lembro de uma vez, dentre várias, em que meus pais resolveram mudar de casa. Meu avô estava automaticamente escalado para os reparos de saída, antes de devolver o imóvel. Desta vez, o dono da casa por algum motivo que não me recordo, alegou que a pintura estava de uma cor diferente e que isso tinha sido feito de má fé. Lembro como se fosse ontem como aquele comentário o feriu. Ele comprou por conta própria todas as tintas novamente, e repintou a casa inteira. É, ele estava me ensinando o significado da INTEGRIDADE!

Lembro das vezes que dormia na casa dele. Toda noite, mesmo com o joelho quase que totalmente desfuncional e muito dolorido, ele se ajoelhava, e por muitos minutos ficava ali, rezando. Não sei bem no que ele acredita, porque acredita ou como acredita, não porque era um segredo, mas porque não importava. Você nunca iria vê-lo se exaltar, ou transformar sua crença num espetáculo por atenção. Ele me ensinou que eu não posso impor minha crença a ninguém, e, mais importante ainda, que eu não posso deixar ninguém impor a mim.  Ele me ensinou o RESPEITO!

Lembro dos momentos de desunião, quando a família se afastava. Somente a presença dele era o suficiente para que todas as diferenças caíssem por terra. Ele é uma figura tão forte que todos os seus argumentos viram rebeldias infantis perto dele. Ele é o denominador comum da família, e ele não ganhou esse posto, ele conquistou.

Ele me ensinou o que realmente significa ser FORTE!

Lembro que ele me ensinou a ser corintiano roxo!
Lembro que ele me ensinou que um exemplo vale mais que mil palavras!
Lembro que ele me ensinou que o silêncio diz MUITA COISA!
Lembro que ele me ensinou que a sua família é seu maior tesouro!
Lembro que ele me ensinou o que era um arrebite pop!
Lembro que ele me ensinou a pescar!
Lembro que ele mesmo construiu a minha primeira cadeirinha de bicicleta!
Lembro que ele me ensinou a lembrar do passado!
Por fim, lembro das NOITES DE NATAL!  Quem as viveu comigo sabe do que estou falando, pra quem não, só posso dizer uma coisa: ele nos ensinou a CONSTRUIR UMA FAMÍLIA!

Ao meu amado avô, Obrigado pela HERANÇA!

 

Thiago Chagas

À espera desse Encontro

A mulher passa toda sua vida à espera de encontros. Encontrar-se consigo, encontrar um bom marido, encontrar sucesso, encontrar satisfação pessoal e profissional. No entanto a maternidade vem de encontro, mesmo que inconscientemente, aos anseios mais íntimos e primitivos do coração de uma mãe, trazendo a certeza de que todo o percurso direcionava à um encontro que a completaria para sempre.

Quem é mãe, sem muito pensar, traduz facilmente a frase acima, pois já experimentou a plenitude que essa experiência nos traz.

Desde a descoberta de uma vida no ventre (seja esta gravidez planejada ou não), a vida passa a ter um outro sentido, pois inicia todo um processo de descobertas acerca de si mesma e da vida. Nesta fase da Expectativa, será refletido com outro peso as responsabilidades assumidas até agora e as que deverão ser assumidas à partir de agora. Medos, alegrias, desejos e anseios. As questões mal resolvidas podem vir à tona, escolhas erradas, traumas de infância e carências emocionais também. Tudo isso e muitas outras emoções são experimentadas em todo o processo de gestação.

Sortuda a mulher que tem um parceiro Maduro e que compreende essa fase, pois apesar de ser um marco na vida de toda família, na mulher há também a carga hormonal que intensifica tudo o que está sendo experimentado.

Quando o bebê enfim nasce, logo nos primeiros dias, vive-se a fase de Desapego. Desapego de tudo o que você construiu para si. Não há tempo para o companheiro, o corpo que foi cultivado muda de forma e muitas vezes traz consigo marcas que jamais sumirão, o sono por uma noite inteira é declarado impossível, a simples escolha de em que horário você quer comer ou quando quer tomar um banho, não são mais escolhas suas. Você não se possui mais.

Muitas vezes é inevitável passar com angústia esses dias. Todos os hormônios ainda estão lá, agora com mais força, para ajudá-la a olhar os acontecimentos e sentí-los de uma forma ainda mais sensível.

Me lembro de questionar, porque ninguém havia me contado que era assim. Ou teria algo de errado comigo? Por que eu tinha tanta vontade de chorar?

Na verdade, não havia nada de errado comigo.  Muitas mulheres definem esses primeiros dias e meses como uma experiência traumática. Não é difícil também encontrar pais participativos que se angustiaram também. Há muito amor pela vida que foi gerada e que agora faz parte da família, no entanto é difícil entender a necessidade de renunciar as coisas que sempre te trouxeram alegria, por mais simples que fossem, como dar uma volta no shopping ou fazer as unhas.

Felizmente o tempo passa, os hormônios se equilibram e vamos nos adaptando ao mesmo passo que o bebê começa a ser mais independente e todo o desapego de nós mesmos, abre um espaço para ser ocupado pelo sentimento mais sublime que alguém poderia experimentar. É a fase do Encontro.

Como pode existir um sentimento assim? Existe alguma coisa ainda mais intensa que amor para definir o que estou sentindo? MEU DEUS!!!  Era Isso… Era Isso… O que ouço as mães dizerem é verdade. Eis o Amor de Mãe. Na verdade, penso que cada mãe acredita que ama o filho mais que todas as outras.

Somos preenchidas por um sentimento sem medidas. Algo que nos retira os limites e quaisquer tentativas de explicação. A vida passa a ser experimentada com mais intensidade, com mais sabor, nos transformamos em uma nova e feliz mulher. Passamos a nos sentir mais fortes e seguras, mais bonitas e completas e a cada dia, cada mês, reafirmamos isso e temos a certeza de que tudo valeu a pena.  Entendemos para que fomos criadas por Deus.

Trazemos nossa própria mãe ao coração e passamos a entender muita coisa acerca desse amor. Nasce também um sentimento de muita gratidão e satisfação por ter sido tão amada.

A necessidade de ser Mulher ainda existe. O desejo de se sentir feminina, ter momentos individuais e continuar a busca pela ascensão profissional também, mas NADA é mais importante que a garantia de estar dando o seu melhor à esse amor. Nada se compara a chegar em casa e ser recebida com um belo sorriso de alegria de alguém que você esperou o dia todo. Ter a tranquilidade que seu amor está alcançando o coração deste bebê, que crescerá de forma saudável, se sentindo cuidado e amado e que se transformará em um adulto seguro pois teve um “porto seguro” que lhe forneceu com grande eficácia, tudo aquilo que um ser humano precisa para ser Feliz.

Você se torna muito mais forte e produtiva para executar todas as coisas que se tornaram necessárias, mas sua melhor  energia, seu foco principal, e seu momento de maior prazer, é estar com essa pessoa que lhe propiciou tudo isso e que fez sua vida se transformar profundamente.

A plenitude que traz a maternidade, nos dá a certeza em dizer: Eu esperei a vida inteira por isso. Eu esperei a vida inteira por você.  De todos os meus encontros, este sem sombra de dúvidas, foi o que realmente me completou.

Alessandra Sassá